Ibovespa recupera perdas; dólar sobe com exterior.

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Por Victor Aguiar, Lucas Hirata e Daniela Meibak

SÃO PAULO – O Ibovespa acentuou ainda mais a alta nesta terça-feira (30/10) e recuperou o terreno perdido no pregão de ontem, já aparecendo novamente na faixa dos 86 mil pontos. O movimento ocorre em linha com o verificado nas bolsas de Nova York; por aqui, balanços corporativos e sinalizações do novo governo em relação a temas econômicos tambémmovimentam os investidores. Por volta de 14h20, o Ibovespa avançava 2,83%, aos 86.172 pontos, perto da máxima do dia, aos 86.608 pontos (3,35%). Com isso, o índice acumula ganho de 0,9% na semana, mesmo após ter fechado a sessão de segunda-feira em queda de 2,24%. O Ibovespa não encerra um pregão na faixa dos 86 mil pontos desde o último dia 9.

As quedas de ontem abriram espaço para uma recuperação de maior intensidade nesta terça-feira, e o bom desempenho das bolsas americanas faz com que a pressão externa sobre o mercado brasileiro se dissipe. Um operador destaca que instituições que costumam representar investidores estrangeiros atuam com maior intensidade na ponta compradora hoje, com destaque para as corretoras Morgan Stanley e UBS.
Em Nova York, as bolsas operam em alta firme, com destaque para o Nasdaq (1%) e Dow Jones (0,9%). Segundo Vitor Suzaki, analista da Lerosa Investimentos, a melhoria do índice de confiança do consumidor dos EUA em outubro deu força aos mercados acionários americanos, o que impulsionou o Ibovespa.

Internamente, Suzaki pondera que os sinais emitidos ontem pelo presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), defendendo a aprovação, ao menos parcial, da reforma da Previdência ainda neste ano, traz certo “otimismo cauteloso” ao mercado. Para ele, a sinalização é positiva por demonstrar que o novo governo compreende a urgência do tema, mas as dificuldades para avotação do assunto ainda em 2018, dado o baixo quorum parlamentar nesta época do ano, fazem com que as expectativas não sejam muito elevadas.
Nesta manhã, o futuro ministro da Economia (atual Fazenda), Paulo Guedes, também defendeu a aprovação da reforma da Previdência neste ano, dizendo que fará uma nova reforma no governo Bolsonaro para implementar o regime de capitalização. Segundo Guedes, o tema é prioridade do novo governo.
Considerando os fatores internos e externos, as blue chips — papéis que costumam concentrar a atuação dos investidores estrangeiros em bolsa — apresentam desempenhos positivos nesta terça-feira, com destaque para Petrobras PN (4,09%) e Petrobras ON (4,01%).
Segundo Suzaki, a possibilidade de votação do projeto de lei da cessão onerosa pelo Senado faz com que os investidores mostrem-se otimistas em relação aos papéis da estatal. “[A expectativa] Tem impacto positivo nos papéis, mesmo num dia de forte queda do petróleo”.
Ainda entre as blue chips, Itaú PN (2,5%) virou para alta, após chegar a cair 2,8% logo após a abertura. Os resultados trimestrais do banco foram considerados neutros por analistas — para o Goldman Sachos, o aumento nos empréstimos, o crescimento na margem financeira e o aumento da inadimplência na comparação trimestral aparecem como destaques do balanço.

Os demais bancos apresentam desempenho ainda mais positivo, caso de Bradesco PN (3,14%), Bradesco ON 3,02%), BB ON (3,03%) e units do Santander Brasil (4,35%). Completando as blue chips, Vale ON (2,67%) também sobe.
O destaque do dia, no entanto, fica com Telefônica Brasil PN (10,3%), melhor desempenho do Ibovespa, após a companhia reportar lucro líquido de R$ 3,18 bilhões no terceiro trimestre de 2018, ante ganho de R$ 1,22 bilhão reportado há um ano.
Para Suzaki, os resultados tendem a ser revertidos em um volume grande de dividendos aos acionistas.
Empresas voltadas ao cenário doméstico também aparecem em destaque no pregão de hoje, caso de Ultrapar ON (7,5%), Lojas Renner ON (7%), TIM ON (6,3%) e B2W ON (5,33%). Na ponta oposta, Suzano ON cai 2,03% e Sabesp PN recua 1,24%.

Dólar
À espera de anúncios mais concretos do novo governo, o mercado brasileiro de câmbio ainda busca uma direção para retomar as apostas e, por ora, vai tomando carona no sinal do exterior.
Por volta das 14h20, o dólar comercial operava em alta de 0,57%, a R$ 3,7278, depois de tocar R$ 3,7198 na máxima do dia. E o real acompanhava de perto um de seus principais pares, o peso mexicano.
De acordo com operadores, algumas informações desencontradas no núcleo do governo eleito acabam gerando sentimento de cautela no mercado, mas não a ponto de reverter a expectativa ainda positiva para a próxima administração.
Hoje, o futuro chefe da área econômica, Paulo Guedes, desautorizou declarações de Onyx Lorenzoni sobre a reforma da Previdência e disse que a medida é uma prioridade. Além disso, ele comentou que o governo de Jair Bolsonaro fará uma nova reforma. Lorenzoni defendeu ontem que a reforma da Previdência seja feita de forma mais ampla, de forma que as novas regras sejam mais duradouras. “Cada um tem de se colocar em seu lugar. Quem tem que falar sobre economia é o futuro ministro da Fazenda, não o da Casa Civil”, disse um operador. O profissional comenta que as informações desencontradas costumam acontecer num período de transição e, embora esperado, não agradam os investidores.
Outro ponto de atenção é o debate sobre o uso de reservas cambiais. Guedes afirmou que a próxima gestão venderá as reservas internacionais se houver especulação sobre o câmbio no país.
“Se houver especulação contra o governo e jogarem o dólar para cima, não tem problema nenhum, não temos receio nenhum”, reiterou Guedes, por diversas vezes. “Pode vir, pode especular contra, não tem problema nenhum”, repetiu. “Se tiver crise e botarem o dólar lá em cima, R$ 4, R$ 5 será ótimo. Vamos reduzir dramaticamente a dívida interna. Quem
quiser dólar nós vamos vender e depois vamos reduzir a dívida interna”.
Segundo Guedes, seria possível vender US$ 100 bilhões de reserva. A proposta começou a ser debatida há cerca de um mês, quando o dólar estava a R$ 4,10. “Se chegar a R$ 4,20, a R$ 5 vai ser muito interessante porque vamos vender US$ 100 bilhões de reserva são R$ 500 bilhões”, disse o economista.
Para o gestor de um fundo multimercado, a sinalização sobre o uso de reservas pode colocar o governo numa “situação difícil” em caso de crise. “O mercado vai testar a disposição de vender reservas mesmo”, diz o especialista. O atual momento, entretanto, é de clima positivo para o mercado e as declarações são “inócuas”, embora “dispensáveis”. “Ele deveria se concentrar na formação da equipe econômica e na agenda. Já são problemas suficientes para este momento”, diz.
A estratégia de uso de reservas, se oficializada, também coloca em jogo a proposta de independência do Banco Central.
Para um ex-diretor da autoridade monetária, cabe ao BC decidir a estratégia para o câmbio – não ao Ministério da Fazenda, que Guedes deve chefiar. “Pelo que eu sei, Guedes será o ministro da Economia, e não presidente do Banco Central. Será que a Fazenda vai ligar para o BC e mandar usar reservas? Por mandato, até agora, é presidente do BC que decide”, diz o especialista. “É mais uma contradição no meio de tantas outras que a gente já viu até aqui”, diz.

Juros
Os contratos futuros de juros iniciaram o dia com volatilidade, oscilando entre alta e baixa, mas firmaram o movimento de queda a partir da abertura dos mercados em Nova York e com as declarações do futuro ministro da Economia, Paulo Guedes.
O DI janeiro/2021 operava a 8,17%, com queda de 0,05 ponto percentual na comparação com o ajuste anterior, e o DI janeiro/2025 era negociado a 9,80%, com baixa de 0,09 ponto. Ao levar em consideração o preço do fechamento, a queda é mais intensa, uma vez que os contratos intensificaram a alta nos últimos momentos do pregão de ontem.
DI janeiro/2020 é negociado a 7,22% (7,29% no ajuste anterior); DI janeiro/2021 tem taxa de 8,16% (8,22% no ajuste anterior); DI janeiro/2025 tem taxa de 9,80% (9,89% no ajuste anterior).

Fonte: Valor Econômico